Pobreza Rural, Distribuição da Riqueza e Crescimento:
a experiência brasileira
in: Distribuição de Riqueza e
Crescimento Econômico, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Edson
Teófilo (org.) et alii.; NEAD -
Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, Conselho Nacional de
Desenvolvimento Rural Sustentável, Brasília: 2000, pp. 173-200.
José Eli da Veiga[1]
Universidade de São Paulo
Professor Titular do
Dep.Economia
zeeli@usp.br
Introdução
Este texto propõe que o foco de uma nova estratégia
de desenvolvimento rural para o Brasil seja a expansão e o fortalecimento da
agricultura familiar. Para tanto, procura cotejar as desvantagens do atual
padrão de crescimento agrícola, cujo principal subproduto é a expulsão
prematura de trabalho, com as vantagens do padrão oposto, redutor de pobreza,
adotado pelas nações semi-periféricas bem sucedidas, além de todas as nações
que hoje fazem parte do primeiro mundo.
A exposição dos argumentos está organizada em três
partes. A primeira procura mostrar a forte ligação que existe entre pobreza
rural e padrão de crescimento agrícola, chamando a atenção para o excessivo
acanhamento dos programas governamentais dirigidos à questão. A segunda procura
mostrar que o maior obstáculo para um efetivo combate à pobreza rural está na
forte crença da elite intelectual brasileira em uma idéia negada pela pesquisa
econômica internacional: de que o crescimento nada tem a ver com a desigualdade; o que leva a pensar que a
redistribuição de ativos fundiários não teria sentido econômico, sendo
aceitável apenas como política de cunho social. A terceira parte procura
comparar alguns fatos do processo de desenvolvimento dos países do primeiro
mundo com outros equívocos muito comuns no debate brasileiro a respeito do
setor agropecuário e do destino do espaço rural, para realçar o impacto do
padrão de crescimento agrícola sobre o desemprego urbano.
1. Pobreza
Rural
A pobreza é proporcionalmente maior no meio rural de
todas as regiões brasileiras. Mas é na proa que essa distorção está mais acentuada.
Enquanto na porção mais miserável do país - o Nordeste - as diferenças
espaciais são tênues, na sua ponta mais exuberante - o Sudeste/Sul - a
proporção de pobres no meio rural chega a ser quase duas vezes superior à
proporção de pobres no meio urbano (tabela 1).
Esta singela constatação impõe pelo menos duas
observações sobre os rumos de desenvolvimento até aqui seguidos pela sociedade
brasileira. Por um lado, parece intrigante o fato da pobreza ser
proporcionalmente mais alta no meio rural, justamente no país que teve uma das
mais drásticas experiências históricas de êxodo em direção às cidades[2].
Por outro, isso indica que a manutenção do mesmo padrão de crescimento
econômico, mesmo que venha a reduzir bastante a pobreza urbana do Nordeste,
poderá não ter efeito equivalente sobre sua pobreza rural, a qual representa,
sozinha, dois terços da pobreza rural brasileira e um quinto de sua pobreza
total (tabela 2).
Quando se examina as características da pobreza
rural da parte mais desenvolvida do país, o que mais chama a atenção é sua
fortíssima ligação com a agropecuária. Os segmentos rurais ocupados em outras
atividades sempre têm uma renda média maior que a dos trabalhadores agrícolas.
Como demonstra o economista José Graziano da Silva (1997:85) às vezes ela chega
a ser 4 a 5 vezes maior, como no caso dos ocupados em serviços auxiliares da
produção e na administração pública da região Sul.
Não pode haver dúvida, portanto, de que qualquer
discussão sobre o teimoso fenômeno da pobreza rural brasileira passa
necessariamente pela consideração das próprias características do setor
agropecuário. E uma das mais marcantes é seu contraste com a estrutura
ocupacional desse setor em todos os países que atingiram altos índices de
desenvolvimento humano. Em todos esses países a agropecuária é uma atividade de
caráter principalmente familiar, enquanto no Brasil ela é predominantemente de
caráter patronal.[3] Três quartos
da área utilizada pelo setor agropecuário brasileiro pertencem a meio milhão de
fazendeiros que empregam quase cinco milhões de peões, cabendo apenas um quarto
dessa área a outros treze milhões de ocupados no setor, entre os quais pelo
menos um quarto estão em situação de auto-consumo.[4]
É muito heterogêneo o conjunto dos estabelecimentos
sem pessoal contratado, nos quais estão ocupados (e/ou subocupados) esses treze
milhões de pessoas (nos quais também moram muitos dos quase cinco milhões de
empregados agrícolas). Apenas um quarto desses estabelecimentos são tocados por
agricultores familiares que conseguem uma razoável renda monetária bruta anual,
que varia de uma média de 25 salários mínimos no Nordeste a uma média de 120 no
Sudeste. Essa renda média é irrisória em três quartos dos estabelecimentos
não-patronais nordestinos, e em mais da metade desses estabelecimentos nas
outras quatro regiões. (tabela 4).
Tamanha distorção resulta evidentemente de uma
herança histórica cuja marca essencial foi o desprezo e a intolerância das
elites pelas formas familiares de propriedade e uso da terra. Com a exceção do
fluxo colonizador que, partindo do extremo sul, permitiu uma certa afirmação da
agricultura familiar até o sudoeste do Paraná, o padrão agrário das demais
regiões foi semelhante ao que predominou no Leste europeu, onde as elites
preferiram impedir que suas populações rurais tivessem acesso à propriedade da
terra.
A maneira como as oligarquias brasileiras aboliram a
escravidão e importaram colonos para as lavouras de café teve o mesmo sentido
histórico da “segunda servidão” do Leste europeu. Houve um sombrio pacto para
impedir que os negros e os imigrantes europeus e japoneses tivessem acesso à
terra. Foi preciso esperar o crash de
1929, e a longa depressão subseqüente, para que uma parte do colonato pudesse
comprar os lotes postos à venda por fazendeiros arruinados. Paralelamente,
formara-se um imenso excedente populacional que logo passou a exercer forte
pressão para ter acesso à propriedade da terra. E, no início da década de 1960,
as ligas camponesas nordestinas, junto com os movimentos de sem-terra sulistas,
quase levaram o governo João Goulart a optar pela democratização do acesso à
terra, isto é, pelo padrão que predominou no Oeste europeu e na América do
Norte.
Durante os 20 anos de ditadura militar, a saída
encontrada pelos excedentes da população agrícola foi o movimento migratório,
principalmente para as regiões de fronteira, onde procuravam se fixar como
posseiros. Mas a política de ocupação do oeste, por meio de incentivos fiscais,
reduziu o alcance dessa válvula de escape.[5]
E a escolha da cana-de-açúcar como única cultura do Proálcool ainda ajudou os
grandes fazendeiros a avançarem cada vez mais sobre as terras da jovem
agricultura familiar do Sudeste. Foi por isso que, em meados dos anos 1980,
quando se encerrava a longa noite ditatorial, o sistema agropecuário brasileiro
tinha um perfil essencialmente patronal, em flagrante contraste com o de todos
os países que conseguiram se desenvolver durante o século 20 (Veiga,1990,1991;
Abramovay,1992)
Com a redemocratização, aumentou bastante a possibilidade
de um trabalhador rural ter acesso a um lote de terra que lhe garanta a
subsistência básica (casa e comida), e bem mais que isso se também tiver acesso
a bens públicos essenciais (como educação e assistência técnica) e a linhas
adequadas de crédito. Entre 1985 e 1994, quadruplicou a possibilidade de uma
família sem-terra ser assentada, desempenho que deu um grande salto no atual
governo (tabela 5). A combatividade do
Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) e sobretudo a simpatia que chegou a
conquistar nas camadas médias urbanas fizeram com que o assentamento de
famílias rurais sem-terra fosse fortemente acelerado em meados dos anos 1990.
Mas o verdadeiro impacto dessa aceleração só pode ser estimado pela comparação
dos dados de assentamento com os dados disponíveis sobre a estrutura agrária.
E, antes de tudo, pela comparação do número de famílias que têm conseguido
terra com o número das que têm se retirado da atividade agrícola.
Entre 1992 e 1995, ficaram sem ocupações agrícolas
assalariadas ou por conta própria cerca de 120 a 150 mil famílias (tabela 6).
Nesse período, as estatísticas indicam que deixaram essas atividades 280 mil
empregados, 12 mil agricultores por conta própria e 24 mil não-remunerados,
totalizando 316 mil ocupados -- ou seja, entre 126 mil e 158 mil famílias,
supondo, em estimativa otimista, 2 a 2,5 ocupados em cada família. Esse número
indica que estariam saindo da agricultura 40 a 50 mil famílias por ano.
Ao assentar 70 mil famílias por ano, o atual governo
está mais que compensando a desocupação estimada. Mas cabe perguntar o que
significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil famílias por ano em um universo
da ordem de 5 ou 6 milhões. O que significa esse saldo positivo de 20 ou 30 mil
lotes familiares de alguns poucos hectares em uma estrutura agrária na qual os
500 mil empregadores concentram mais de 75% das terras agrícolas? O saldo
positivo de 20 a 30 mil lotes, com área média em torno de 7 ha, retiraria de
150 mil a 200 mil ha por ano dos quase 300 milhões de ha detidos por 500 mil
fazendeiros e os acrescentaria aos 90 milhões de ha em posse das 3,5 milhões de
famílias que trabalham por conta própria. Ainda é uma gota no oceano.
Ao mesmo tempo, é muito importante ter presente que,
pela primeira vez na história do Brasil, uma política governamental
inteiramente voltada à agricultura familiar começou a emergir com o decreto
1.946, de 28 de junho de 1996, que criou o Programa Nacional de Fortalecimento
da Agricultura Familiar (Pronaf). Não é mais uma simples diferenciação do
crédito para 'pequenos agricultores'. Além de nova concepção para o
financiamento da produção de agricultores familiares e suas organizações,
trata-se de uma estratégia de parceria entre eles, governos (municipais,
estaduais e federal) e iniciativa privada na aplicação dos recursos, destinados
também à melhoria da qualidade de vida, ao aprimoramento profissional, à adoção
de tecnologia, à adequação e implantação de infra-estrutura e outros objetivos.
O Pronaf está conseguindo produzir o novo ambiente institucional
necessário à ampliação da base social da política nacional de crédito e de
desenvolvimento rurais. É verdade que as conseqüências práticas deste novo
ambiente são ainda tímidas e parciais: o crédito de investimento atinge parcela
reduzida de agricultores (102 mil) e boa parte dos que tomaram crédito de
custeio (388 mil) já estavam incluídos no sistema (sobretudo mediante
integração agroindustrial). O mais importante, entretanto, é que a relação
entre o sistema bancário e a agricultura familiar ganhou uma dimensão pública
inteiramente inédita na história do País. Começam a aparecer experiências em
que a sociedade civil cria as condições necessárias a que o sistema bancário
possa realizar suas funções de intermediação financeira de maneira segura e
onde a organização coletiva substitui parcialmente os parâmetros individuais no
estabelecimento dos custos das operações. A intermediação bancária entre as
verbas públicas e os agricultores familiares sofre influência de um conjunto
variado de organizações sociais cuja conseqüência, em alguns casos, é o
alargamento da quantidade de agricultores com acesso ao crédito, sem que isso
signifique prejuízo para os bancos. Simultaneamente, a segunda grande linha de
ação do Pronaf, que financia infraestrutura municipal, já desencadeou um
inédito e frutífero processo de discussão coletiva local sobre os rumos do
desenvolvimento rural, apesar dos critérios de seleção dos primeiros mil
municípios não terem sido os melhores. (Abramovay & Veiga,1998)
São, portanto, ainda acanhados os programas voltados
à distribuição de terra que podem expandir a agricultura familiar (como os
assentamentos), e à distribuição de renda via crédito barato para agricultores
e investimentos em municípios selecionados (como o Pronaf). Na verdade, esses
programas só avançaram porque o processo democrático tem engendrado um gradual,
mas vagaroso, aumento da pressão social exercida pelos trabalhadores agrícolas.
Principalmente a do MST por mais assentamentos e do movimento sindical,
liderado pela Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), pela
ampliação do Pronaf. Todavia,
percebe-se que no âmbito governamental esses dois programas têm sido apenas
tolerados como necessárias ações de resgate da chamada “dívida social”. Na
visão dominante, eles não teriam qualquer importância estratégica em termos de
crescimento econômico e desenvolvimento. Ou seja, são programas mais
legitimados por compromissos assumidos durante o período eleitoral do que pelas
convicções de seus intelectuais orgânicos.
2. Distribuição
de terra e crescimento econômico
Trata-se, então, de um segundo contraste: desta vez
entre as convicções dos intelectuais brasileiros (preponderantes entre os que
estão no governo) e as conclusões de sistemáticas comparações internacionais,
como, por exemplo, as reunidas por Binswanger & Deininger (1997).[6]
A idéia de que a desigualdade não dificulta o crescimento econômico, podendo às
vezes até ajudá-lo é uma crença que permanece dominante entre os economistas
brasileiros, mas que só pode ser considerada anômala, e até extravagante, no
debate internacional. Há quase dez
anos, o modelo proposto Murphy, Shleifer & Vishny (1989) mostrou que o
crescimento alavancado por um determinado setor da economia só pode ser durável
se os benefícios do surto inicial forem distribuídos de maneira suficientemente
igualitária que permitam a expansão e o aprofundamento dos mercados. Ou seja,
numa rejeição indireta da hipótese de Kuznets (1955), esses autores concluíram
que tanto mais favorável ao crescimento será o perfil da demanda quanto menos
desigual for a distribuição de renda. E a conclusão desse modelo foi amplamente
confirmada pelo sofisticado teste empírico de Anand & Kanbur (1993).
Nos anos 1990, estudos sobre o impacto da
distribuição da riqueza e da renda no crescimento econômico passaram a
considerar também a influência exercida nessa relação pela variável política,
particularmente pelos processos eleitorais. Foi assim que, tanto Persson &
Tambellini (1992,1994), quanto Alesina & Rodrick (1994), chegaram a duas
conclusões essenciais: i) a desigualdade na distribuição da propriedade da
terra sempre apresenta correlação negativa com o crescimento subseqüente; ii)
quanto maior a desigualdade de riqueza e de renda, menor o crescimento,
principalmente nas democracias. Conclusões recentemente confirmadas e ampliadas
tanto por Deininger & Squire (1996), quanto por Li, Squire & Zou
(1998).
Essas contribuições são certamente desconhecidas
pelos quadros intelectuais cuja influência poderia alterar o pensamento
governamental sobre o assunto. Provavelmente porque durante o processo de
redemocratização o debate brasileiro sobre o problema agrário tenha se
concentrado em outros aspectos, como se verá a seguir.
Uma das teses mais aceitas pelos intelectuais brasileiros
é de que existe um profundo dilema entre as dimensões econômica e social da
estrutura fundiária; ou seja, de que um mesmo padrão de distribuição da terra
não pode atender simultaneamente aos objetivos de eficiência e eqüidade. Por
isso, tendem a aconselhar a
“necessidade de uma estratégia seqüencial que, em primeiro lugar,
maximize o produto da terra e que, em segundo lugar, distribua, como desejado,
o seu produto. Isto ocorreria ou pela via de preços mais baixos que a maior
eficiência possibilitaria, ou então por mecanismos de redistribuição de renda
por vias fiscais.” (Albuquerque,1987:101)
Seguindo essa linha de raciocínio, os intelectuais
brasileiros com posições políticas mais à direita alegam que dois dos
principais argumentos a favor da visão distributivista da reforma agrária não
teriam sido confirmados pela pesquisa econômica. Esses dois argumentos seriam,
segundo eles, o da existência de deseconomias de escala na produção
agropecuária e o da maior eficiência de estabelecimentos de pequeno e médio
porte. Ou seja, ao afirmarem que tais argumentos não teriam sido confirmados
pela pesquisa econômica, só revelam ignorar os resultados das mais relevantes
pesquisas sobre esses assuntos, entre as quais devem ser destacadas pelo menos
as de Binswanger et al. (1974,1986,1987,1988,1994,1995,1997), Britton & Hill (1975) e
Boussard (1987).
Ao mesmo tempo, seria um ledo engano achar que a
visão de dilema entre as dimensões econômica e social da redistribuição
fundiária seja um monopólio de intelectuais de direita. Ela é compartilhada por
muitos dos que têm posições políticas até antagônicas. Estes dizem que a
reforma agrária não é mais necessária, do ponto de vista econômico,
permanecendo, todavia, como uma possibilidade para um desenvolvimento que incorpore
a dimensão social como um parâmetro importante das políticas públicas. A
diferença, segundo esses intelectuais de esquerda, é que, ao enfatizarem apenas
a dimensão social, não estão querendo diminuir o papel que os trabalhadores
agrícolas podem vir a ter no futuro.
“Numa outra correlação - pelo menos mais democrática - de forças da
sociedade brasileira, acreditamos que será possível aos grupos sociais hoje
menos favorecidos, embora majoritários (como, por exemplo, os camponeses pobres
e os bóias-frias), se fazerem ouvir na formulação das políticas agrícola e
agrária do País. Mas, por ora e já, é fundamental que se evite a ‘lumpenização’
desses grupos menos favorecidos,...” (Graziano da Silva, 1987:56)
Se essa radical separação entre as dimensões econômica
e social, na forma de um grande dilema, é um denominador comum de pensadores de
direita e de esquerda, não se poderia esperar que fosse diferente entre os que
procuram se equilibrar no centro ideológico da dinâmica política. De fato, são
eles os que melhor exprimem a visão dominante no atual governo, quando dizem
que a bandeira da reforma agrária não desapareceu, mas mudou de ênfase, pois já
não combina objetivos econômicos e sociais, como ocorreu até meados dos anos
1960.
“Após a implantação do regime militar, a industrialização cresceu
consideravelmente, prescindindo da reforma agrária. (...) Essa opção e as
transformações ocorridas no campo tornaram o aspecto econômico da reforma
agrária relativamente secundário nos dias de hoje. Tem-se insistido também no
fato de que a produtividade de novos assentamentos rurais depende de
investimentos e da assistência de um Estado em crise. Desse modo, a reforma
agrária se converteu, sobretudo, em uma questão de justiça social para com a
massa dos chamados ‘sem-terra’.” (Fausto,1994:538-9)
Esse vasto consenso sobre o caráter apenas social,
mas não econômico, da promoção da agricultura familiar faz que as raras vozes
que remam contra a maré sejam vistas como excêntricas aberrações. O pior,
contudo, é que a negação da natureza econômica dos programas de expansão e
fortalecimento da agricultura familiar retira-lhes qualquer caráter
estratégico, condenando-os a uma duvidosa comparação entre custos e benefícios.
Despida de qualquer sentido econômico de longo prazo, a promoção da agricultura
familiar tende a parecer menos eficaz do que muitas outras formas de combate à
pobreza. Nessa perspectiva, acanhadas políticas voltadas à promoção da
agricultura familiar podem até ser bem acolhidas no âmbito do Comunidade
Solidária. Mas a ampliação e o aprofundamento desses programas são rejeitados
como políticas cruciais de uma agenda de desenvolvimento rural que exija a
articulação das diversas agências governamentais implicadas.
O mais irônico é que ao empurrar o fomento da agricultura
familiar para o âmbito dos programas de assistência social, principalmente por
não se dar conta de sua importância econômica, o governo acaba sendo acusado
pelos representantes do patronato agrícola de estar incentivando uma
anti-histórica retenção de população no meio rural. Dizem que o governo está
indo contra a realidade do primeiro mundo.
Os porta-vozes dos grandes fazendeiros adoram
repetir uma ladainha que começa com duas idéias sobre os países desenvolvidos.
Primeiro dizem que por lá dois terços dos agricultores abandonaram
definitivamente a atividade rural nos últimos trinta anos. Em seguida afirmam
que essas sociedades não conseguiram manter mais do que 5% da população em
condições civilizadas de existência no campo. Daí concluem que fatalmente 15%
da população brasileira deverá sair do campo nas próximas décadas para, de
alguma forma, ser “incluída” no meio urbano. (Jank,1997)
Apesar de conter grotescas confusões sobre o que é
população rural, população agrícola, população ocupada no espaço rural e
população ocupada na agropecuária, há uma verdade atrás nesse discurso: o
crescimento econômico sempre tenderá a reduzir o número de ocupados no setor
agropecuário. É por isso que os intelectuais orgânicos do patronato
agropecuário consideram errado combater a pobreza com ações de assentamento e
de apoio aos agricultores familiares com terra. E também é por isso que parte
significativa da intelectualidade dá um respaldo vacilante e sem convicção aos
programas de expansão e fortalecimento da agricultura familiar.
Não há como mudar a atitude dos que têm uma
preferência ideológica por grandes fazendas cercadas de favelas cheias de
peões. Mas os que não têm preconceitos ou discriminações contra os agricultores
familiares certamente evitarão brigar com os fatos do processo de
desenvolvimento rural dos países do primeiro mundo que serão expostos a seguir.
3. Desenvolvimento rural
Em primeiro lugar é fundamental saber que em países
bem desenvolvidos a importância relativa população rural é muito maior do que
se imagina. Basta dizer que tanto nos Estados Unidos, como no Canadá, mais de
23% dos habitantes residem no meio rural, enquanto no Brasil essa taxa está em
torno de 21%. Nos países desenvolvidos há inclusive tendência à estabilização,
ou até ao aumento do peso relativo da população rural. Para a surpresa de
muitos analistas, no núcleo orgânico da economia mundial desapareceu o
principal gatilho da longa história de êxodo rural. Há um alto nível de
satisfação entre os que vivem no campo.
Cerca de 70% dos que residem em vilarejos franceses
declaram não querer mudar de domicílio, por apreciarem muito o seu modo de vida
e os serviços à sua disposição. Os mais contentes são os aposentados e os
idosos em geral, pois sua presença nesses vilarejos resulta de opção. Os mais
descontentes são os que não tiveram escolha, como os jovens de 15 a 24 anos e
as mulheres de 25 a 40 anos. Prefeririam o anonimato e a agitação cultural da
vida urbana. Mas, em geral, os rurais gostam de viver onde estão.
Paralelamente, um quinto dos urbanos declaram que
gostariam de viver no campo. Só que as estratégias residenciais continuam
fortemente ligadas à localização dos empregos, por mais que as facilidades de
deslocamento tenham reduzido restrições à moradia rural. Ainda no caso francês,
entre 1982 e 1990, passaram de 47% para 56% os empregados que deixam seus
municípios para ir ao trabalho. Essa proporção é ainda maior nas zonas rurais
‘periurbanas’, mas menor nas ‘profundas’, onde o agribusiness dá um terço dos empregos rurais.
Ao lado dos idosos, também desempenha um papel de
fundamental importância no ambiente rural a estadia temporária em residências
secundárias, como as chácaras de recreio. É algo que aumenta com a redução da
jornada semanal de trabalho, favorecendo o comércio, o artesanato e
principalmente o mercado de produtos agropecuários diferenciados (ou de
qualidade), que envolve um grande número de agricultores que não querem, ou não
podem, inserir-se nas cadeias dos grandes complexos agroindustriais.
Esse peso crescente dos aposentados, habitantes
temporários e turistas faz com que dinâmica da economia rural já não seja mais
determinada por veneradas “riquezas naturais,” como solo fértil, madeira ou
minérios. Essas vantagens comparativas não desapareceram, mas já haviam sido
superadas por outros fatores de produção, como mão-de-obra barata, frouxa
regulamentação, e debilidade sindical. Combinadas aos fortes investimentos
públicos em transportes, chegaram até a incentivar uma certa interiorização
industrial. Nos Estados Unidos, por exemplo, a fatia rural do emprego fabril
passou de um quinto para mais de um quarto entre 1960 e 1980.
Mas a principal novidade é que o primeiro mundo já
entrou numa terceira onda desse processo, com uma volta às “riquezas naturais,”
mas de outro tipo. São os encantos da vida rural – beleza, tranqüilidade e
segurança - muito valorizados principalmente por aposentados, turistas e alguns
tipos de empresários, que se tornaram a principal fonte de vantagens
comparativas. E apesar dos agricultores já serem uma pequena minoria da
população rural dos países mais desenvolvidos – um décimo no caso dos EUA – é
principalmente deles que depende o maior trunfo de seu meio: a qualidade do
ambiente natural.
Isso tudo mostra que o processo de desenvolvimento
acaba por deslocar a base da economia rural da exportação de produtos primários
e manufaturados para a importação de pessoas e de dinheiro público. Nos EUA,
são as microrregiões rurais que mais atraem turistas, aposentados e serviços
governamentais as que têm obtido maior sucesso socioeconômico. Não as que
apostaram apenas no agribusiness e
nas empresas industriais ou comerciais.
Explicações detalhadas sobre essas tendências podem
ser encontradas tanto no livro Rural
Development in the United States, cujo principal autor é o assessor de
política doméstica do presidente Clinton, o economista William Galston (1995),
quanto no relatório Pour une Ruralité
Choisie, que resultou de um trabalho de quatro anos realizado por uma
equipe prospectiva sobre o futuro dos espaços rurais, composta por dezessete
pesquisadores franceses de primeira linha, e coordenada pelo geógrafo Bernard
Kayser (1994). São dois estudos que contrariam uma idéia muito repetida no
Brasil, inclusive por responsáveis pela política de desenvolvimento rural do
governo federal: que as atividades não-agrícolas no campo estariam induzindo
uma “desterritorialização do espaço urbano-rural”.
É verdade que mudaram radicalmente as relações
cidade-campo. Mas não foram mudanças que reduziram o contraste entre ambas, por
mais que a estrutura ocupacional da economia rural tenha se tornado semelhante
à da economia urbana. Nos EUA, os serviços garantem mais da metade dos empregos
rurais e a indústria quase um quinto. Mas o valor do espaço rural está cada vez
mais ligado a tudo o que se opõe à cidade: paisagens silvestres ou cultivadas,
água limpa e ar puro. Tudo o que os americanos chamam com muita razão de “amenity values”. [7]
Fica claro, então, que a grande diferença entre os
espaços rurais de países desenvolvidos e de países subdesenvolvidos está na
estrutura ocupacional, particularmente no peso relativo da ocupação agrícola.
Enquanto os ocupados agrícolas são apenas um décimo dos ocupados no meio rural
americano, eles continuam a ser cerca de quatro quintos no meio rural
brasileiro. É preciso saber, entretanto, que o peso relativo da ocupação
agrícola sobre a ocupação total - que no Brasil é de 22% - varia bastante nos
países desenvolvidos. No Estados Unidos e o no Reino Unido ele é pouco superior
a 2%, mas chega a 10% na Áustria, a 7,5% na Itália, e a de 6,4% no Japão.[8]
(tabela 7)
Esses números indicam é que a atual superfície
agrícola útil (SAU) do Brasil, que deve estar em torno de 350 milhões de ha,
pode comportar um razoável aumento do número absoluto de ocupados em atividades
agropecuárias. Tomando-se como parâmetro de referência o valor médio dos quinze
países que formam a União Européia, a atual SAU brasileira poderia suportar
hipoteticamente um número de ocupados na agropecuária 20% superior ao
atual. Em outras palavras, quando o
peso relativo da ocupação agrícola brasileira tiver despencado dos atuais 22%
para apenas uns 5%, o número absoluto dos ocupados no setor agropecuário
brasileiro poderá ter aumentado 20%, sem qualquer expansão da superfície
agrícola útil.
A questão que se coloca, portanto, é a de saber qual
será a opção estratégica da sociedade brasileira em relação a seu espaço rural.
Se optar preferencialmente pelo modelo defendido pelo patronato agrícola, de
grandes fazendas que há muito não ampliam a oferta de trabalho (nas quais a
maior parte da área é consagrada à pecuária extensiva[9]),
o número de ocupados por 100 ha de SAU certamente cairá dos atuais 5 para menos
de 3. Se optar preferencialmente pela agricultura familiar, haverá margem para
que essa relação se mantenha, ou até aumente. Em ambos os casos haverá queda
proporcional da ocupação agricola, mas a pressão sobre o mercado de trabalho
urbano será muito diferente conforme a opção.
Em resumo, se as perspectivas de geração de emprego
urbano forem bem favoráveis, a preferência pela agricultura patronal continuará
a ser perfeitamente viável, mesmo que desastrosa em termos de distribuição de
riqueza e de renda (e de seus impactos sobre o crescimento). Mas se essas
perspectivas não forem tão favoráveis, manter a preferência pela agricultura
patronal será uma atitude não só desastrosa, como cada vez menos viável.
Afinal, ninguém ignora que essas perspectivas não são nada favoráveis,
justamente para o segmento dos trabalhadores não-qualificados. As projeções do
IPEA indicam que a única maneira de evitar o aumento do desemprego urbano,
mantendo o atual padrão agrícola, seria a escolha reacionária de pisar no freio
do progresso tecnológico.
Duas variáveis devem ser consideradas em qualquer
tentativa de previsão sobre emprego: as taxas de crescimento do PIB e a
intensidade do progresso tecnológico. As estimativas do IPEA (1997), que estão
no segundo volume de O Brasil na Virada
do Milênio, revelam uma elevada sensibilidade do mercado de trabalho
brasileiro a essas duas variáveis. Mostram sobretudo que a clivagem entre
trabalhadores qualificados e não-qualificados não poderá ser evitada. As
projeções para 2005 indicam que a taxa de desocupação dos qualificados não
chegará a ser preocupante, podendo variar entre 2 e 5%. Todavia, no que se
refere aos não-qualificados, a situação é bem diferente. Neste caso há um risco
de desemprego próximo dos 10%. As projeções mostram que a taxa de desocupação
dos não-qualificados só poderá ser baixa na hipótese de um lento processo de
inovações. Se o progresso tecnológico for apenas médio, a taxa de desocupação
dos não-qualificados já ultrapassará a barreira dos 5%.
Os países que hoje fazem parte do primeiro mundo
optaram por não frear o progresso tecnológico e, por isso mesmo, adotaram no
início deste século uma série de políticas que permitiram a regulação do êxodo
rural e, sobretudo, um certo monitoramento do processo de transformação de
atividades exclusivamente agrícolas na chamada “pluriatividade”, isto é, a
simbiose familiar de ocupações agrícolas e não-agrícolas.[10]
(Veiga,1990,1991,1994-a) Isto quer
dizer que não é apenas a necessidade de combater a pobreza rural que legitima
as ações que redistribuem riqueza e renda, como o programa de assentamentos e o
Pronaf. O que é importante perceber é que a ampliação e o aprofundamento dessas
políticas serão cruciais para que a economia brasileira possa ter rápida
modernização sem que isso traga ainda mais desemprego urbano.
Trata-se, portanto, de saber se ainda pode ser uma
alternativa viável e realista o abandono do padrão agrícola em vigor, de
expulsão prematura de trabalho, em favor da expansão e fortalecimento da
agricultura familiar. Os dados disponíveis sugerem que sim (Veiga,1997-b).
Indicam que a base para um crescimento agrícola com redução da pobreza está
presente em todas as regiões, mesmo que em situações muito diversas. Apesar de
numerosos no noroeste riograndense, no oeste catarinense e nos sudoeste e oeste
paranaenses, os agricultores familiares encontram nessas mesorregiões condições
de progresso material menos favoráveis do que as existentes no nordeste
riograndense e no Vale do Itajaí catarinense.
Apesar dos canaviais e laranjais do Sudeste terem
asfixiado um grande número de agricultores familiares, eles ainda mostram
sinais de vida em muitas microrregiões paulistas, inclusive no centro-norte
formado pelas divisões de Campinas e Ribeirão Preto. Continuam com muito fôlego
na mancha formada pelo sul e partes do centro e centro-oeste mineiros, o mesmo
acontecendo no corredor produtivo capixaba denominado “cinturão verde/turismo”
e nas regiões serrana e centro-sul fluminenses.
Malgrado as imensas dificuldades prevalecentes no
Nordeste, os agricultores familiares continuam no páreo, principalmente nas
regiões dos Agrestes, Serras do Ceará, Subcosteiras e Hortigranjeiras. E, dada
a recente ocupação dos imensos espaços regionais do Centro-Oeste e do Norte, a
precariedade de suas infra-estruturas e o marasmo de seus serviços, as
possibilidades de afirmação e consolidação dos agricultores familiares parecem
amplas, mas de avaliação e delimitação muito mais difíceis.
Ou seja, os 34 anos de preferência pelo padrão de
expulsão prematura de trabalho não extinguiram a possibilidade de uma transição
para o padrão redutor de pobreza, mesmo que os estragos tenham sido
imensos. A maior incógnita passa a ser,
então, como criar condições propícias para essa transição em um contexto
desfavorável, dominado pela inércia do modelo patronal.
Conclusão
A principal conclusão deste trabalho refere-se à
própria consistência de uma nova agenda de desenvolvimento para o Brasil. Para
que não piorem as taxas de desemprego urbano, principalmente entre os
trabalhadores não-qualificados, a manutenção do atual padrão de crescimento
agrícola, apoiado na agricultura patronal, exigirá um lento progresso
tecnológico nos outros setores. Ao contrário, a opção por um rápido processo de
modernização na indústria e nos serviços, sem piora das taxas de desemprego
urbano, exigirá a adoção de uma estratégia de desenvolvimento rural baseada na
expansão e fortalecimento da agricultura familiar. Ou seja, não é apenas o
combate à pobreza rural que legitima as ações que redistribuam riqueza e renda,
como o programa de assentamentos e o Pronaf. A ampliação e o aprofundamento
dessas políticas são cruciais para que a economia brasileira possa ter
crescimento durável sem que isso traga ainda mais desemprego urbano.
Entretanto, para que uma nova agenda de
desenvolvimento possa ser consistente no que se refere à relação cidade-campo,
será necessário superar pelo menos três carências comuns entre os intelectuais brasileiros, a começar
pelos economistas. A primeira é achar que o crescimento nada tem a ver com a desigualdade,
e particularmente com a desigualdade na distribuição dos ativos fundiários. A
segunda é enxergar na eficiência econômica apenas sua dimensão alocativa, como
se a eficiência distributiva fosse extra-econômica, isto é, apenas social. E a
terceira é ignorar o processo histórico de desenvolvimento rural das nações
mais avançadas. Será necessário superar pelo menos essas três carências para
que a importância estratégica dos programas de expansão e fortalecimento da
agricultura familiar deixe de ser ofuscada.
Tabelas
Tabela 1 - Proporção de Pobres no Meio Rural, Brasil e Regiões, 1990
(Porcentagens)
|
Regiões |
Metropolitano (%) |
Urbano (%) |
RURAL (%) |
|
SUL |
17,6 |
16,8 |
28,9 |
|
SUDESTE |
26,9 |
17,7 |
27,1 |
|
NORDESTE |
43,4 |
43,8 |
49,1 |
|
CENTRO-OESTE |
22,4 |
23,2 |
31,8 |
|
NORTE |
43,4 |
43,2 |
- |
|
BRASIL |
28,9 |
26,8 |
39,2 |
Fonte: Rocha (1995), a partir de dados
do IBGE/PNAD 1990
Nota: Meio rural do Norte não investigado pela PNAD e estado de Tocantins incluído em Goiás.
Tabela 2 - Participação do Meio Rural na Pobreza Brasileira, 1990
(Porcentagens)
|
Regiões |
Metropolitano (%) |
Urbano (%) |
RURAL (%) |
|
SUL |
2,0 |
4,5 |
3,9 |
|
SUDESTE |
17,8 |
10,8 |
4,7 |
|
NORDESTE |
7,6 |
18,5 |
19,0 |
|
CENTRO-OESTE |
0,8 |
3,6 |
1,5 |
|
NORTE |
0,9 |
4,4 |
- |
|
BRASIL =
100,0 |
29,2 |
41,7 |
29,1 |
Fonte: Rocha (1995), a partir de dados
do IBGE/PNAD 1990
Nota: Meio rural do Norte não investigado pela PNAD e estado de Tocantins incluído em Goiás.
Tabela 3 - Number of
farms and total farm land, by form of management, Brazil and Italy, 1995 (%)
|
|
Number (%) |
Farm land (%) |
|
BRAZIL n run with hired workers n family farms (only or mainly) n other Total |
9 64 27 100 |
75 24 1 100 |
|
ITALY n run with hired workers n family farms (only or mainly) n other Total |
7 93 - 100 |
31 69 - 100 |
Sources: MPA/INEA (1997) &
Veiga (1998-a)
Tabela 4 - Renda Monetária Bruta
Média (RMBm), em salários mínimos por ano (sm/a), dos estratos de
Estabelecimentos Não-Patronais segundo as Grandes Regiões, Brasil, 1985
|
REGIÕES |
|
RMBm |
|
|
|
|
A (acima da média) |
B (entre a média e a
mediana) |
C (abaixo da mediana) |
Todos |
|
Norte |
55 |
17 |
4 |
22 |
|
Nordeste |
25 |
5 |
0 |
8 |
|
Sudeste |
119 |
17 |
-3 |
30 |
|
Sul |
91 |
22 |
2 |
31 |
|
Centro Oeste |
68 |
13 |
-6 |
19 |
Fonte: Veiga (1995-a)
Tabela 5 - Agricultores sem-terra assentados pelo governo brasileiro
1964-1998
|
Período |
No. de famílias |
Média Anual |
|
1964-1984
- Ditadura Militar |
115.000 |
5.500 |
|
1985-1989
- Governo Sarney |
90.000 |
18.000 |
|
1990-1992
- Governo Collor |
- |
- |
|
1993-1994
- Governo Itamar |
12.600 |
6.300 |
|
1995-1998
- Governo FHC |
280.000 |
70.000 |
Fonte: MEPF/INCRA
Tabela 6 - Evolução da ocupação agrícola no Brasil, 1992-1995
(em milhares)
|
Tipo de Ocupação |
1992 |
1995 |
Variação (%) |
|
Empregadores |
574 |
530 |
-7,7 |
|
Empregados |
5.064 |
4.784 |
-5,5 |
|
Conta-própria |
4.526 |
4.514 |
-0,3 |
|
Não-remunerados |
5.122 |
5.098 |
-0,5 |
|
Autoconsumo |
3.211 |
3.223 |
+0,4 |
|
OCUPADOS |
18.497 |
18.149 |
-1,9 |
Fonte:
Graziano da Silva (1997) com dados do IBGE/PNAD
Tabela 7 Peso relativo da Ocupação
Agrícola e Densidade Populacional
Europa, EUA e Japão, 1995
|
Países |
Ocupação Agrícola % |
Número de ocupados por 100 ha de SAU |
População Total por 100 ha de SAU |
|
Grécia |
20,4 |
16,1 |
215 |
|
Áustria |
10,0 |
7,7 |
233 |
|
Espanha |
9,3 |
4,4 |
156 |
|
Finlândia |
7,7 |
6,0 |
- |
|
Itália |
7,5 |
9,0 |
346 |
|
Japão
(1992) |
6,4 |
- |
- |
|
Europa 15 |
5,3 |
5,9 |
278 |
|
França |
4,9 |
3,6 |
192 |
|
Holanda |
3,7 |
12,3 |
- |
|
Alemanha |
3,3 |
6,9 |
471 |
|
Suécia |
3,0 |
3,6 |
- |
|
EUA |
2,3 |
- |
- |
|
Reino
Unido |
2,1 |
3,4 |
369 |
|
Bélgica |
- |
7,5 |
743 |
|
Dinamarca |
- |
4,2 |
192 |
|
Irlanda |
- |
3,3 |
- |
|
Portugal |
- |
12,7 |
- |
|
Luxemburgo |
- |
4,7 |
- |
Nota: SAU = Superfície Agrícola Útil
Fonte: Ministero Per Le Politiche Agricole, Istituto Nazionale di Economia Agraria (1997) Italian Agriculture in Figures 1997 , 125 p.
APÊNDICE SOBRE
OS DADOS ESTATÍSTICOS DO IBGE
Mudanças
de conceituação e de datas de referência obrigam um uso muito cauteloso das
mais recentes estatísticas do IBGE. No que se refere às PNADs, é fundamental
ter em conta as ponderações que vêm sendo feitas pela equipe coordenada pelo
economista José Graziano da Silva, da Unicamp. Quanto ao Censo Agropecuário de
1995-1996, ainda inconcluso, só se pode dizer que todo cuidado será pouco. O próprio
IBGE reconhece que a mudança do período de referência para o ano-agrícola
(antes era o ano civil) fez com que os resultados do Censo de 1995-1996 não
sejam comparáveis aos dos censos agropecuários anteriores. Por isso, pode ser
bem ilustrativa a comparação dos dados censitários sobre o Estado de São Paulo
com os dados obtidos pelo Levantamento Censitário de Unidades de Produção
Agrícola (LUPA), realizado pela Secretaria de Agricultura daquele estado também
no período 1995/96.
São Paulo: Comparação dos Censos
Agropecuários 1995/96
IBGE
x LUPA
|
IBGE |
LUPA |
Diferença |
|
a) No. Estabelecimentos: 218.016 |
a)
No. de UPAs: 277.124 |
- 21% ou + 27% |
|
b) Pessoal
Ocupado: 914.954 Só Resp. e
Fam. 301.890 Com P.Contratado
613.064 |
b) Pessoal
Ocupado: 1.100.303 Fam.do Prop. Trab.na UPA:
394.410 Trabalhadores Permanentes:
425.893 Volantes: 280.000 |
- 17% ou + 20% |
|
c) Áreas (em 1.000 ha) Dos estabelecimentos: 17.369 |
c)
Áreas (em 1.000 ha) Das UPAs: 19.999 |
- 13% ou + 15% |
População Residente e PEA Ocupada 15
horas e mais,
Brasil e São Paulo, 1995 (1000 pessoas)
|
População |
BRASIL |
SÃO PAULO |
|
a) Residente Urbana Rural |
152.375 120.351 32.024 |
33.820 31.450 2.370 |
|
b) PEA ocupada Não Agrícola (urbana) (rural) Agrícola (urbana) (rural) Urbana Rural |
65.559 51.014 47.144 3.870 14.545 3.705 10.840 50.847 14.709 |
14.866 13.760 13.242 518 1.105 561 544 13.803 1.062 |
Fonte: IBGE/PNAD apud
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Poços de Caldas, MG: 10-14 de
agosto de 1998.
[1]
Com agradecimentos a todos os que participaram do
projeto “Distribuição da riqueza, pobreza
e crescimento econômico: teoria, evidências empíricas e implicações para as
políticas públicas”, apoiado pelo NEAD (núcleo de estudos do Gabinete do
Ministro Extraordinário da Política Fundiária), pelo Instituto de
Desenvolvimento Econômico do Banco Mundial, e pelo Grupo de Pesquisa em
Desenvolvimento do Banco Mundial.
[2] A
estimativa do demógrafo George Martine (1995), de que cerca de 28,4 milhões de
pessoas deixaram a área rural entre 1960 e 1980 sugere que o êxodo envolveu,
nas três últimas décadas, algo próximo a 300 mil famílias por ano. Mas há
fortes indicações de que o processo começa a se esgotar nos anos 90. Segundo o
IPEA (1997), os 16 milhões que deixaram o meio rural na década de 60,
correspondiam a 38% dos residentes. Na década de 80, os 12,4 milhões que saíram
correspondiam a cerca de 32% da população rural de 1990. O economista José
Francisco Graziano da Silva (1997) destacou que a redução da população rural,
de -0,6% ao ano nos anos 80, caiu para apenas -0,1% ao ano entre 1992 e 1995. A
população rural com 10 anos ou mais, que diminuía a uma taxa de -0,1% ao ano nos
anos 80, aumentou 0,4% ao ano entre 1992 e 1995. Ao mesmo tempo, os ocupados em
atividades agrícolas, que cresciam 1,1% ao ano nos anos 80, passaram a diminuir
-0,9% ao ano entre 1992 e 1995. Em suas projeções, o IPEA (1997) assume uma
diminuição da taxa de êxodo rural que indica que a população rural brasileira
poderia ser de 20% no ano 2000, 18% em 2005, e em torno de 14% em 2020.
[3] Esse contraste está detalhadamente caracterizado em Veiga (1991) e Abramovay (1992). Apenas para ilustrá-lo foi incluída a tabela 3 que compara o Brasil à Itália.
[4] Esses números decorrem de estimativas feitas com base em dados do IBGE. Principalmente das PNAD, mas também do Censo Agropecuário de 1995/96 ainda inconcluso. Ver apêndice sobre as dificuldaes de utilização dessas estatísticas.
[5] Quantos conseguiram ninguém sabe. Só é possível dizer que os programas oficiais de 'colonização' atingiram, nos 20 anos de ditadura, apenas 115 mil famílias (média de 5,5 mil famílias por ano). Número equivalente de famílias foi assentado só por governos estaduais nos primeiros 10 anos de redemocratização, enquanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) atendeu pouco mais.
[6] Esses autores mostram, aliás, que o real impacto de uma eventual ampla redistribuição fundiária costuma não ser percebido por governos e até por beneficiários, devido às suas limitadas capacidades de análise. Além disso, é um impacto que também pode ser facilmente ofuscado. “...distortionary agricultural and agrarian policies are often fully consistent with underlying material conditions and the prevailing features of the political environment. (...) ... overall agrarian reform would benefit groups who have poor potential for collective action and who are hard to include in postreform coalitions, such as peasants, the landless, or dispersed consumers. Both governments and beneficiaries have limited analytical capacity to evaluate the economic impact of reform. And the real impact of policies is easy to obfuscate.” (Binswanger & Deininger,1997)
[7] Na verdade, o desenvolvimento leva à revalorização do ambiente natural, e não à “urbanização do campo” visualizada por Marx em rascunhos de 1857-8. Aliás, foi-se o tempo em que a virtude das enormes cidades era “arrancar grande parte da população do embrutecimento da vida do campo”, como ele também escreveu com Engels, há exatos 150 anos, no fascinante Manifesto Comunista.
[8] Também
varia muito a relação entre o pessoal ocupado na agricultura e a superfície
agrícola útil (SAU), que no Brasil está em torno de 5 ocupados por 100 ha de
SAU. Essa relação situa-se entre 3 e 4 no Reino Unido, na França e na Suécia.
Mas chega a 9 na Itália e a mais de 12 na Holanda. E o mesmo acontece com a
relação entre a população total e a superfície agrícola útil, que no Brasil é
de apenas 50 habitantes por 100 ha de SAU. Enquanto na França e na Dinamarca
essa relação está próxima de 200, na Alemanha ela chega a 471 e na Bélgica a
743. (tabela 7)
[9] As pastagens ocupam 85% da área das grandes fazendas e 38% da área dos estabelecimentos de porte familiar (cf. Veiga,1994-b)
[10] Exatamente o que não ocorre onde predomina a agricultura patronal. Basta observar o que está acontecendo em qualquer região brasileira onde predomine a agricultura patronal para perceber as vantagens do processo de desenvolvimento rural baseado na agricultura familiar.